terça-feira, 15 de novembro de 2011

VIDA

Renate,
presa em uma penitenciária feminina no Brasil quer compartilhar conosco essas palavras pessoais:

Vida significa, superar obstáculos e, quando necessário, derrubar muros construídos por nós mesmos.Vida significa, sentir alegria no coração e transmiti-la na forma de amor, para sermos felizes através da felicidade do outro.
Vida significa, descobrir a beleza do mundo, se integrar em sua evolução harmônica, conservá-lo e utilizar a sua força respeitosamente.Vida significa, fazer o bem em seu caminho, pois tudo que semeamos tem como consequência aquilo que iremos colher amanhã.
Vida significa, moldar a sua personalidade, aprender com seus erros, ter experiências para encontrar o verdadeiro caminho e nele permanecer. Vida significa, ser um amigo verdadeiro, oferecer confiança e honestidade e sempre manter a sua palavra.
A vida é um prazer quando se sabe aproveitar o momento.
A vida é bela quando se aprende a ver a sua beleza.

Renate Zeh

terça-feira, 7 de junho de 2011

“... e aqui algo mais que me faz pensar”

Carta recebida da Prisão Feminina do Carandiru, São Paulo
 

O homem vive do espírito
e não do corpo.
Quando ele toma consciência disso
e transporta a sua vida para a alma e não para o corpo,
aí, então, vocês poderão acorrenta-lo atrás de grades de ferro:
ele sempre será livre.
(Leo Tolstoi)

Sobre Tolstoi “Espírito ou corpo – corpo ou espírito?”

Porque eu fiz isto? Porque vim parar aqui? Pergunta idiota!? Espírito ou corpo? Dinheiro fácil! Resposta idiota, ou não tão idiota!? Se eu pelo menos tivesse escutado minha voz interna, não estaria aqui. Ela me disse para eu não fazer, que não ia dar certo. Foi o meu espírito ou o meu corpo, ou ambos, que falaram comigo? E eu, então, decidi pela barriga. Espírito ou corpo? Bem, agora estou aqui, presa! 

Em mim desabrochou uma flor!

No caminho para o trabalho vejo plantas maravilhosas, não plantadas pela mão humana, com flores lilás reluzentes. Não. Elas vieram com o vento ou no bico de algum pássaro, crescem para cima dos muros do presídio e em todos os lugares. Olho para elas e esqueço por alguns minutos os muros que me prendem, que me fazem prisioneira. Os meus muros internos que me prendem com necessidades corporais como o ciúme, a inveja, o ódio, o desejo de apropriação, preconceitos, etc... Mas estes sentimentos não começam no espírito? Corpo ou espírito?

Quando olho para as flores esqueço por alguns minutos os muros. Sinto em mim a força, a paz. Sinto em mim a beleza no espírito e no corpo. Sinto a força do espírito, do Espírito Santo que me penetra e a mim se manifesta. Que está em mim e em todos os homens. E eu me sinto livre atrás das grades. Por minutos esqueço o quanto de saudades eu sinto da minha família, dos meus amigos, que não querem mais ter contato comigo porque menti para eles. Porque eles não conseguem compreender como é que eu fui fazer isso. Me dói na alma não poder abraça-los! Alma? Imortalidade! Espírito ou corpo? Vou vê-los novamente. Sou forte. O espírito em meu corpo é forte. O Espírito Santo em mim me torna forte. Saber disso e crer nisso me torna livre, livre atrás das grades. E a fé move montanhas. E também a mim!!!!

Autora: Gabriele
PS: Me interessaria saber o que outras pessoas pensam sobre isso. Me escrevam, por favor. Obrigada.


Sob o símbolo do arco-íris – Um comentário “interno”

“O deserto –
um arbusto
uma sarça
que arde –
Incandescente – Paixão!
“Eu queimei por ti”

“Aquilo que arde em mim,
não me destruirá.
Ira incandescente
ou paixão em chamas
ou culpa que queima.
Deus, Tu estás aqui.
Aqui é um lugar sagrado. Agora.
Porque Tu estás entre nós.”

Carta de Torsten
“Conforme prometido, pensei um pouco sobre o texto bíblico do livro de Êxodo, capítulo 3, versículos de 1 a 12. (Nota do redator: Velho Testamento, vide texto abaixo). Para mim, o texto contém a seguinte mensagem:

“Uma aliança com Deus”

A aliança entre Deus e o homem é diferente da aliança entre seres terrenos, na qual ambos os parceiros têm os mesmos direitos. Na aliança com Deus, é sempre Ele que dá o tom, Ele escolhe os seus parceiros para que estes coloquem em prática e anunciem as suas bênçãos. Através de pequenos milagres Deus dá aos seus parceiros a fé e a força para a realização de suas obrigações desta aliança.
O sentido da aliança está na cumplicidade entre Deus e o homem. A aliança com Deus é uma aliança de amor; não pode haver amor sem reciprocidade. Deus promete seu apoio enquanto houver fidelidade na aliança. Este apoio de Deus dá a mim, pessoalmente, a esperança e a força para superar situações difíceis atuais e futuras.
Além disso, somos lembrados praticamente todos os dias através de um arco-íris no céu da nossa aliança com Deus. Eu creio nisso, assim como eu creio no amor.
Com carinho,Torsten

 Text: Exodus 3: 1-12

Um dia em que Moisés levava a pastar os rebanhos de Jetro seu sogro, sacerdote de Midiã, nos confins do deserto perto de Horebe, o monte de Deus, apareceu-lhe o anjo do Senhor numa chama de fogo dentro de uma sarça. Moisés reparou no fogo e verificou que o fogo não consumia a sarça. Aproximou-se para ver o que era e Deus chamou-o:
“Moisés! Moisés!""Pronto! Aqui estou!"   "Não te aproximes. Tira os sapatos, porque estás a pisar uma terra sagrada. Eu sou o Deus dos teus antepassados, o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacob."Moisés escondeu o rosto nas mãos, porque teve receio de olhar para Deus! O Senhor continuou: "Tenho visto a aflição do meu povo no Egipto, e tenho ouvido os seus clamores sob a opressão dos que os tiranizam. Por isso venho livrá-los dos egípcios e tirá-los dali para uma belíssima e vasta terra, uma terra em que jorram o leite e o mel, onde habitam os cananeus, os heteus, os amorreus, os perizeus, os heveus e os jebuseus.
Sim, o choro do povo de Israel tem subido ao céu até mim, e tenho visto as duras condições de vida com que os egípcios os oprimem. Assim vou enviar-te a Faraó para que lhe peças que te deixe levar o meu povo para fora do Egipto."  "Mas eu não sou a pessoa indicada para tal!", exclamou Moisés. Deus insistiu: "Eu estarei seguramente contigo. E a prova de que sou eu próprio quem te envia será o seguinte: Quando tiveres levado o meu povo para fora do Egipto havereis de adorar Deus aqui mesmo, nesta montanha."

PS: O culto deveria ser celebrado sob o símbolo de um arco-íris.

“Conheço lugares especiais.
Peregrino de um lugar para outro.
Minha cidade natal.
Meu local de aprendizado, minha escola.
Cume em terreno montanhoso
São Paulo – Alemanha – São Paulo
Estão ligados à minha vida de maneira especial...
Localidades de natureza especial.
E, por fim, a paixão de Deus por mim?
Amor que não vacila, um porto seguro para mim?”

Perguntas em aberto de uma “Peregrina”
Inge


Textos pelos presos e presas da penitenciária Itaí, e pelos membros da Igreja da Paz durante um culto em Santo Amaro / Sao Paulo no dia 13/02/2011. Todos os textos (exeto o texto da bíblia) traduzidos do alemão por Bia Hennig
http://luteranos.com.br/santoamaro/

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Conta teu conto …

A SACOLA


Fiquei sempre escondida, pois meu genitor estava em prisão.


Ele tinha entrado lá quando ainda era muito jovem, cheio de energia, e a única forma que tinha para preencher o tempo era me fazer. Assim eu fui surgindo, cada dia um pouco mais. Ele usou muitos retalhos, alguns deixados por outros detentos. Assim eu tinha varias cores e texturas, mais principalmente eu tinha as vivências de quem me fez; quando ele sentia opressão, meu ponto era mais apertado, quando ele foi se liberando dessa opressão meu ponto era mais folgado e leve, e eu podia respirar em fim. Cada dia, cada ano colocava um botão, um bordado, um pedaço de papelão escrito, todo era possível. Ele e eu éramos quase uma coisa só.


Quando ele cumpriu pena, saiu, e eu fui com ele. Foi a primeira vez que vi a luz do sol.


Nunca imaginei que isso ia acontecer um dia. Até esse momento eu sempre me senti querida, eu era seu objeto mais precioso, dentro daquele lugar. Mais quando ficou livre, ele começou a ter outros muitos objetos e eu, logo foi abandonada. Assim eu senti por primeira vez a solidão.


Mas minha vida continuou. Logo fui encontrada por um velho pescador e ele me usava para guardar todos os apetrechos de pesca. Em sua casa ele me pendurava no gancho da sala ao lado da lareira, um lugar bem gostoso e quentinho. Ele acostumava ao entardecer se sentar lá para contar historias a seus netinhos.


Eu, que tinha já escutado tantas historias, quando estava lá na cela aonde nasci!! As historias de vida dos condenados me preencheram tudo esse tempo, agora as historias de fadas me aconchegavam....


Ao amanhecer, João, meu novo dono me pegava e ia comigo a jogar as redes, no vasto mar sem fim. Neste momento se me permitia de novo ver a luz do sol, e eu tinha de novo, o gosto de liberdade que foi sempre meu anseio.

amparo
Conta teu conto aqui se quiser
Convidamos a contar teu conto

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Duas Sexta-feira Santa


Hoje, Sexta-feira Santa. Osasco em Sao Paulo. Centro de detenção para 2.000 homens jovens de 18 anos para cima


Um deles é o Bruno. No pátio, lotado, 400 - e a maioria deles ainda não foi condenada. Eles  esperam por sua cruz. Ele, Bruno, já  sabe que  tem  "sete anos". Nós estamos em um círculo, de pé, com  os braços estendidos,  tocando as mãos, nos olhando, encontrando uns aos outros com uma silenciosa concentração. Alguém, e depois todos, elevamos o "Pai nosso  que está no céu ... livrai-nos do mal ..." e imediatamente depois o 'Ave Maria .. ' 13 homens jovens, a maioria estando só 14 dias ou quatro semanas aqui - oram em voz muito alta,  todos juntos. Bruno e todos na volta, 
o mesmo altar em um novo ambiente? Uma catedral, no lugar de sofrimento e da incerteza? Uma, com 12  outra com 2000 – mas não estão sozinhos. 


Um outro em Osasco - nós não sabemos o seu nome. Deus sabe o seu nome. Ele não fala. Não  com a gente, nós que devemos passar por sua gaiola duas vezes hoje naquele mesmo dia. Um cubo de grades grossas pintadas de amarelo brilhante. Um cubo de 3x3x3 m. Duas portas de aço o fecham ... do mundo exterior.  
Oito horas, o guarda passa  lá dia a dia, semanas e anos. Ele é livre para dar três passos en qualquer direcao,  sempre que ele quer. Seus próprios passos e o barulho da enorme chave de ferro na fechadura  são os únicos sons que chegam a seus ouvidos, e, desta vez, também o nosso "Boa Tarde”. Sua boca é silenciosa, o rosto fica  imóvel, quando  nós o saudamos. Um em Osasco – sem ser preso,  mas em 'prisao'. Quem conversa com ele, "Pai Nosso... livrai-nos”? Um - preso  em Osasco, São Paulo.
(WL).

domingo, 17 de abril de 2011

a pedra se foi

  
Grave com pedra no Megido - Foto: Alexander Schick



             "Uma pedra caiu do meu coração." Alívio. Novas possibilidades se abrem. A partir da prisão de "impossibilidades". As paredes de pedra alta  e as grades que limitam a minha visão, e mantêm longe os seus pensamentos  para mim, e que não podem parar a nossa esperança comum, são quebradas,  enfim! Eu tive que esperar muito tempo, demasiado para suportar a solidão, ideias escuras - até que a mensagem chegou a mim como a mensagem de um anjo: "Você pode ir. Você está livre. As pedras se foram."

             É a mensagem sobre "eu" estou esperando em Itai, em Avaré, no Carandiru, e outros 
 locais em que petrificam pensamentos e sentimentos facilmente - mesmo sem paredes, sem caracteres de cimento como alguns companheiros e cinco centímetros de grossas portas de  ferro! O buraco negro da tristeza vem, secretamente, mesmo para onde eu dirijo o meu pensamento. Mas um pensamento está dentro de mim, mais do que qualquer abísmo dentre todos que poderiam ser: "Vá ​​você pode sair. Você está livre." Não vou desistir da minha esperanca. Nunca.

             O que eu vou sentir,  para onde me virarei, quando se abrir suficientemente 
 a gaiola e os portais altos. Eu vou de cabeça erguida! Como, aliás, o Jesus, vida,  sofrimento e companheiro, sentiu-se, como ele reagiu quando de repente  notou um brilho de luz no seu buraco negro do declínio total, o "nao aguentar" e do desespero? Ele se levantou, foi até a coluna de luz e tem a "pedra-buraco-grave"  empurrado, que o manteve preso.

             Os guardas no buraco da minha própria sombra imensa, da minha 
 culpa e minha solidão, o não perdão dos críticos, os juízes, cegos por minha esperança e minha confiança têm que me deixar passar . Ele está presente  -  que absolve. Páscoa vem a mim. A pedra se foi. "Eu estou aqui fora." (Ver também Mateus 28,1 ss)
Autior: Wolf

no caminho


“No caminho para o trabalho, vejo sempre uma linda flor de um lilás brilhante, que não foi  plantada pela mão  homem.  Não, ela vem trazida pelo vento ou os   pássaros,  e sobe os muros da prisão e quase cobre eles, e  quando olho para lá por minutos esqueço dos muros, que me mantém presa, e esqueço  também aqueles que me mantém presa internamente.” 
 
Isto é parte de um texto escrito por Gabriele, para o blog do pastor Wolfgang Lauer.  Ela esta presa em Carandiru.  Impressionou-me por sua beleza e profundidade e  me inspirou para reflexionar também sobre minha experiência em prisões, aonde desde faz um ano e meio dou  dramaterapia para um grupo de mulheres brasileiras. Aqui vai um poema.

Ha flores que crescem através dos muros
Ha flores que desabrocham a pesar dos muros
Carandiru Mulheres
No encontro, um abraço
No movimento um contacto
Na fala uma esperança
Vidas ceifadas
Vidas sofridas, desde sempre
Vidas para ainda ser vividas
Culpa, arrependimento, tristeza, saudade, solidão
Mas em cada encontro, uma flor desabrocha, uma flor se atreve a se desafiar, e apesar de tudo cresce!
Para esta flor...    
               ... A vida vale a pena....
Amparo del Moral
Sessões de dramaterapia


 
 Amparo del Moral
Sessões de dramaterapia     
     

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Próxima reunião do grupo 'Carcerária'



 Amigas e amigos!
boas-vindas a todos para nossa próxima reunião em quarta-feira, 02/03/11 como de costume às 19.30 horas na igreja, CASA PRAXIS. Queremos olhar para os últimos desenvolvimentos, considerar estratégias financeiras, enossas necessidades de serviços profissionais voluntários de um escriturário / contador, de médicos, de um
advogado penal, e de psicoterapeutas
.
Estou ansioso de ver vocês em 02 de março.

Abracos fortes
Wolf

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

“Uma grande oportunidade”

 .
 
Entre março e dezembro de 2010, estivemos, Amparo e eu, 21 vezes na Penitenciária Feminina do Carandirú em São Paulo, realizando sessões de Dramaterapia. Nestes encontros, a princípio semanais e depois quinzenais, exercícios corporais, jogos dramáticos e contos, mediaram as relações entre as 2 terapeutas e 12 mulheres detentas, em média.

As participantes de grupo eram pessoas que não conseguiam aprovação no exame criminilógico, e a consequente passagem para o regime semi-aberto. Em sua maioria estavam lá, há mais de 5 anos e carregavam o estigma de terem cometido um crime grave.

Em nosso 1º encontro quando a assistente social perguntou ao grupo, sob que base aquele grupo estava sendo formado, uma delas respondeu: "Nós esperamos uma oportunidade". Nesse momento compreendi que nós, as terapeutas, também esperávamos uma oportunidade.

Na verdade uma grande oportunidade de:

- Olhar para aquelas mulheres e ver além do erro cometido;

- Perceber que assim como todos nós que vivemos nesta época,elas se confrontaram com o mal, e na medida do possível para cada uma, fazem disso um trampolim para se desenvolverem.

- Reconhecer que a solidão é a passagem pelo buraco da agulha para que se chegue em alguma transformação.

- Que o afastamento da família, da casa, da terra, do país, é um fator de profundo desenraizamento e provoca um adoecimento social muito grave.

Parece que o sistema penitenciário atual, nada mais é do que um reflexo de um macro sistema social / economico que privilegia a desigualdade, a não fraternidade,e não recupera ninguém.

Acredito que o que cura, o que pode salvar, são as milhares de pequenas ações sustentadas pelos encontros humanos genuínos.

O que resultou destes encontros? Todas fomos tocadas, afetadas pela humanidade uma das outras.

Angela

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

O que tem a ver conosco?

Este ano por três vezes fomos à prisão de Itaí. Uma imensa estrutura de cimento, um bunker no meio de uma bela natureza, perto da represa de jurumirim. Nos jardins do redor da prisão, crescem rosas, crescem ingênuas, a despeita do que acontece lá dentro.


Depois de atravessar uma grande área com muitas salas direcionadas ao aparelho burocrático, e recebidos muito amavelmente por a equipe de saúde, entramos nos recintos da prisão, no meio a forte segurança. Nos ofereceram uma sala pequena com grades, a escola, único lugar aonde poderíamos realizar as sessões de dramaterapia com um grupo de alemães.


A grande maioria dos presos aqui confinados são “mulas”, transportam drogas de um pais a outro. Mas, quando ficamos mais perto descobrimos que cada um tem um passado, uma historia. Historias truncadas de vida, que ninguém sabe quando nem como poderão ser retomadas.


Que os leva a entrar numa “espelunca” desta? Necessidades, dívidas, desejos, sonhos inalcançáveis ou simplesmente aventura?


Aqui estão doze homens antes técnicos, comerciantes, engenheiros, cozinheiros, vendedores.... Agora todos entram numa única categoria, “criminosos”. Esta marca lhes acompanhara durante muito tempo, inclusive depois de cumprir pena. È um estigma difícil de deletar numa sociedade como a nossa que está desejando encontrar culpáveis para tirar o corpo fora de algo que infelizmente somos todos culpáveis.


Todos nós criamos uma sociedade falsa, doente, aonde o valor primo é o dinheiro, o poder e a aparência.


Através desta experiência, e através deles, termino este ano, ficando mais perto do que é verdadeiramente humano, e com a certeza de que só uma justiça que realmente restaura, que educa, que valoriza o humano, a dignidade como valor “ sine quanum “ poderá mudar algo nesta sociedade. Autora: Amparo

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Saudações

para os alemães na prisão em Itaí


 Que o bom acontece a você no ano novo.
Que se cumpram suas idéias pessoais e planos.
Que você tome o poder para você mesmo, para que permaneca ágil mesmo em uma situação de estreito.
Que a alegria, que desaparece tão facilmente, cresca e tome posse em você.
Que as noites te tragam bons pensamentos para o dia.

Estatísticas - a população carcerária do Brasil

De acordo com as últimas notícias, 27.12.2010,(EFE) "a população carcerária do Brasil atual é de 494.237 presos, o que significa que o número de detentos triplicou nos últimos 15 anos, segundo dados oficiais divulgados nesta segunda-feira.

De acordo com o Departamento Penitenciário Nacional (Depen), organismo do Ministério da Justiça, o número de presos em 1995 era de pouco mais de 148 mil. Segundo os dados do ministério, recolhidos pela Agência Brasil, dez anos depois o número de presos alcançou os 361.402, um aumento de 144%, e atualmente já chega a 494.237. Além disso, o número de agentes policiais penitenciários se situa em 60 mil." EFE

quinta-feira, 8 de julho de 2010

peregrino

“Tira os sapatos dos teus pés,
porque o lugar em que estás é terra santa”  (Êxodo 3,5)

Ali ele está sentado, diretamente do lado do caminho, encostado em uma coluna de pedra. Ele tirou as sandálias. Os seus pés tocam a “terra santa”. Como se ele quisesse descansar, tomar um tempo. O olhar está dirigido para o longe, para os muros cinza de um hospital penitenciário para mulheres e homens, não muito distante da estação de metrô Carandirú, no norte da cidade de São Paulo. Três pessoas estão no caminho, que leva a um céu azul com pesadas nuvens brancas. É como se o azul e o branco acinzentado estivessem tocando o rosto do peregrino, que permanece invisível. Será que o céu e as nuvens estão refletindo as suas esperanças e angústias?



857 mulheres, detentas brasileiras e estrangeiras - entre elas oito alemãs – na Penitenciária Feminina da Capital, na Avenida Zaki Narchi, 1369, estão separadas por somente cem metros deste quadro. Seus pés não conhecem o contato com a terra quente. Elas dormem no chão de cimento, sobem e descem escadas de pedra, olham para grades, que as mantêm aqui. Se pudessem olhar por cima dos altos muros protegidos, elas poderiam ver exatamente esta cena: todo dia, toda noite um peregrino permanece neste lugar especial, nos degraus de pedra de uma cruz. Ele já há anos, como se algo o segurasse aqui – algo incomum, único. O “sagrado” parece não soltá-lo.

Peregrinos são seres versáteis: ‘Às vezes em caminhos estranhos’, ‘às vezes na procura de si mesmos’, ‘às vezes focados em um objetivo estabelecido’. Deter-se e olhar para frente é parte de sua natureza. Como faz parte da natureza das mulheres na Penitenciária do Carandiru: peregrinas em seu caminho totalmente pessoal, cada um deles sem igual. Também elas – pessoas em ‘lugar santo’. Como o local no deserto, no qual o ‘Santo’ apareceu ao peregrino Moisés e o convocou a conduzir os homens para fora de seu cativeiro, do lugar de desamparo e domínio para um futuro novo e bom.

Moisés procurou o faraó. Ao final o convenceu a deixar os prisioneiros seguirem o seu caminho. Mas os detentos não confiaram na liberdade. Eles tinham se adaptado à impotência, a suportar as circunstâncias. Eles aprenderam a amar a dependência, o habitual. A comodidade das disposições alheias os dominava.


“Tira os sapatos dos teus pés, porque o lugar em que estás é terra santa”. A presença e a dedicação de Deus não abandona o lugar da impotência, da solidão, da violência e da lei impiedosa. O amor, o perdão e a soberania de Deus, a sua “Santidade”, se dirigem aos homens nestes lugares. Como se Ele quisesse dizer: Eu não posso agir de outro modo; eu não posso e não quero me renegar. Eu tenho que continuar sendo Eu mesmo. Vocês estão no meu coração. Estou entre vocês.”

Ele exorta para parar. Ele, sendo Ele próprio um “peregrino”, chama para o caminho – o caminho da liberdade, da disposição para correr riscos e da nova abertura para a própria vida.
(texto original:pastorwolf, tradução: Elvira Julia Rieckmann)

sábado, 12 de junho de 2010

tempo da alegria em um lugar da dor


Na prisão o “Tempo da Paixão” está sempre presente. É o sentido de sua invenção/instituição e de sua celebração pela sociedade humana. “Todos querem sair daquí” – é o tema principal em todas as conversas. Também na cadeia superlotada do Carandirú reina a solidão íntima entre as 900 mulheres alí confinadas. Pouco antes da Páscoa eu queria alí cantar hinos pascais, com alguns coralistas da nossa comunidade, para as sete alemãs lá detidas. Queríamos levar esperança para novos inícios e a afirmação de que não estão esquecidas. No entanto, nas regras e na burocracia a Páscoa não existe. Não está prevista. Igrejas não registradas nos órgãos prisionais oficiais não podem exercer atividades nos presídios. Mas a PÁSCOA não tinha esquecido as mulheres. Por ocasião duma visita rotineira, alguns dias antes do Dia das Mães, uma representante da diretoria do presídio, uma equipe de mulheres, pede uma conversa. “Vocês podem cantar para todas as mulheres presas (mais de 800), por 15 minutos em cada um dos blocos? 14 cantores são permitidos”. É claro que podemos! A primeira reação dos coralistas foi mista, mas a reserva inicial transformou-se em seguida num espontâneo “Sim, eu participo”! Todos queriam, mas só 14 estavam autorizados. O medo do desconhecido (as cadeias no Brasil não têm boa fama), dos detentos e a insegurança em conseguir superar tudo isso finalmente dá lugar à curiosidade do amor ao próximo.


Pouco a pouco onze jovens mães, com seus filhos recém-nascidos nos braços, tomam assento sobre dois bancos compridos, ao longo das paredes brancas dum quarto, enquanto nós começamos a entoar baixinho uma de nossas canções. Estamos na clínica da cadeia. Começam breves conversas, abraços, contatos. Uma mulher vem da Bolívia, outra da África do Sul, todas as demais são brasileiras. Segurando firmemente os filhos em seus braços, todas sabem que em seis meses terão que separar-se deles. Canções populares e hinos religiosos se alternam. Para cada uma das 800 pessoas trouxemos uma folha com os textos das melodias. Também o dum cântigo zulú - “Woza Moya oyiNgcwele” (Vem, Espírito Santo). As mulheres acompanham os cantos. Ou elas choravam, assim como alguns componentes do coro – hoje, aliás, com maior número de homens. A sul-africana se levanta, com a criança nos braços, e entoa como solista uma canção que ela conhece, em zulú. Mais emoção no ambiente. A despedida não é fácil.

A nossa acompanhante da diretoria, mantém-se afastada, remove todos os obstáculos administrativos e, obedecendo à sua ordem, as chaves de ferro das portas são viradas. Estamos num dos espaços habitacionais das prisioneiras. Ficamos no andar térreo, acima estão as celas. É o Dia das Mães. Famílias com crianças visitam as mães, irmãs, esposas. As estrangeiras não recebem visitas familiares. Hoje nós somos a única variação em seu dia-a-dia. Todas cantam conosco, algumas com fôrça, outras menos. Sempre de novo convidamos as guardas diante das grades a se juntarem ao nosso canto.

Eu não as ouví cantar, mas elas agradecem pela visita.

No último bloco moram apenas estrangeiras (300). Dentre elas cinco alemãs, número esse que agora aumentou para oito. A alegria prorrompe, de parte de algumas até exageradamente, quando cantamos. Algumas africanas dançam. Eu pronuncio algumas palavras em inglês: “Agora vocês estão aquí, presas. Virá o tempo quando estarão livres, não se esqueçam disso. Também as peregrinas às vezes têm que descansar, sentar-se, meditar e depois seguir adiante. Agora vocês estão confinadas nesse espaço, mas não para ficarem presas por toda a vida. Para prepará-las para a liberdade, porisso vocês estão aqui. E o tempo certamente virá!” – Algumas frases eu pronuncio espontaneamente em zulú. Alguns típicos gritos de júbilo ressoam involuntariamente em zulu. Cinco alemãs moram nesse bloco. Duas participantes de nosso coro mantêm correspondência com mulheres alemãs. Elas se encontram pela primeira vez – mais lágrimas, mais abraços. Cria-se um novo contato por correspondência. Agradecimentos a nossa acompanhante. No pequeno ônibus regressamos a Santo Amaro. Os pensamentos sobre o Dia das Mães no presídio feminino do Carandirú misturam-se com os que se voltam para as próprias famílias, que já esperam, saudosas, por seus maridos..
texto: pastorwolf / tradução: Horst Graetz