sexta-feira, 13 de maio de 2011

Conta teu conto …

A SACOLA


Fiquei sempre escondida, pois meu genitor estava em prisão.


Ele tinha entrado lá quando ainda era muito jovem, cheio de energia, e a única forma que tinha para preencher o tempo era me fazer. Assim eu fui surgindo, cada dia um pouco mais. Ele usou muitos retalhos, alguns deixados por outros detentos. Assim eu tinha varias cores e texturas, mais principalmente eu tinha as vivências de quem me fez; quando ele sentia opressão, meu ponto era mais apertado, quando ele foi se liberando dessa opressão meu ponto era mais folgado e leve, e eu podia respirar em fim. Cada dia, cada ano colocava um botão, um bordado, um pedaço de papelão escrito, todo era possível. Ele e eu éramos quase uma coisa só.


Quando ele cumpriu pena, saiu, e eu fui com ele. Foi a primeira vez que vi a luz do sol.


Nunca imaginei que isso ia acontecer um dia. Até esse momento eu sempre me senti querida, eu era seu objeto mais precioso, dentro daquele lugar. Mais quando ficou livre, ele começou a ter outros muitos objetos e eu, logo foi abandonada. Assim eu senti por primeira vez a solidão.


Mas minha vida continuou. Logo fui encontrada por um velho pescador e ele me usava para guardar todos os apetrechos de pesca. Em sua casa ele me pendurava no gancho da sala ao lado da lareira, um lugar bem gostoso e quentinho. Ele acostumava ao entardecer se sentar lá para contar historias a seus netinhos.


Eu, que tinha já escutado tantas historias, quando estava lá na cela aonde nasci!! As historias de vida dos condenados me preencheram tudo esse tempo, agora as historias de fadas me aconchegavam....


Ao amanhecer, João, meu novo dono me pegava e ia comigo a jogar as redes, no vasto mar sem fim. Neste momento se me permitia de novo ver a luz do sol, e eu tinha de novo, o gosto de liberdade que foi sempre meu anseio.

amparo
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sexta-feira, 22 de abril de 2011

Duas Sexta-feira Santa


Hoje, Sexta-feira Santa. Osasco em Sao Paulo. Centro de detenção para 2.000 homens jovens de 18 anos para cima


Um deles é o Bruno. No pátio, lotado, 400 - e a maioria deles ainda não foi condenada. Eles  esperam por sua cruz. Ele, Bruno, já  sabe que  tem  "sete anos". Nós estamos em um círculo, de pé, com  os braços estendidos,  tocando as mãos, nos olhando, encontrando uns aos outros com uma silenciosa concentração. Alguém, e depois todos, elevamos o "Pai nosso  que está no céu ... livrai-nos do mal ..." e imediatamente depois o 'Ave Maria .. ' 13 homens jovens, a maioria estando só 14 dias ou quatro semanas aqui - oram em voz muito alta,  todos juntos. Bruno e todos na volta, 
o mesmo altar em um novo ambiente? Uma catedral, no lugar de sofrimento e da incerteza? Uma, com 12  outra com 2000 – mas não estão sozinhos. 


Um outro em Osasco - nós não sabemos o seu nome. Deus sabe o seu nome. Ele não fala. Não  com a gente, nós que devemos passar por sua gaiola duas vezes hoje naquele mesmo dia. Um cubo de grades grossas pintadas de amarelo brilhante. Um cubo de 3x3x3 m. Duas portas de aço o fecham ... do mundo exterior.  
Oito horas, o guarda passa  lá dia a dia, semanas e anos. Ele é livre para dar três passos en qualquer direcao,  sempre que ele quer. Seus próprios passos e o barulho da enorme chave de ferro na fechadura  são os únicos sons que chegam a seus ouvidos, e, desta vez, também o nosso "Boa Tarde”. Sua boca é silenciosa, o rosto fica  imóvel, quando  nós o saudamos. Um em Osasco – sem ser preso,  mas em 'prisao'. Quem conversa com ele, "Pai Nosso... livrai-nos”? Um - preso  em Osasco, São Paulo.
(WL).

domingo, 17 de abril de 2011

a pedra se foi

  
Grave com pedra no Megido - Foto: Alexander Schick



             "Uma pedra caiu do meu coração." Alívio. Novas possibilidades se abrem. A partir da prisão de "impossibilidades". As paredes de pedra alta  e as grades que limitam a minha visão, e mantêm longe os seus pensamentos  para mim, e que não podem parar a nossa esperança comum, são quebradas enfim! Eu tive que esperar muito tempo, demasiado para suportar a solidão, ideias escuras - até que a mensagem chegou a mim como a mensagem de um anjo: "Você pode ir. Você está livre. As pedras se foram."

             É a mensagem sobre "eu" estou esperando em Itai, em Avaré, no Carandiru, e outros 
 locais em que petrificam pensamentos e sentimentos facilmente - mesmo sem paredes, sem caracteres de cimento como alguns companheiros e cinco centímetros de grossas portas de  ferro! O buraco negro da tristeza vem, secretamente, mesmo para onde eu dirijo o meu pensamento. Mas um pensamento está dentro de mim, mais do que qualquer abísmo dentre todos que poderiam ser: "Vá ​​você pode sair. Você está livre." Não vou desistir da minha esperanca. Nunca.

             O que eu vou sentir,  para onde me virarei, quando se abrir suficientemente 
 a gaiola e os portais altos. Eu vou de cabeça erguida! Como, aliás, o Jesus, vida,  sofrimento e companheiro, sentiu-se, como ele reagiu quando de repente  notou um brilho de luz no seu buraco negro do declínio total, o "nao aguentar" e do desespero? Ele se levantou, foi até a coluna de luz e tem a "pedra-buraco-grave empurrado, que o manteve preso.

             Os guardas no buraco da minha própria sombra imensa, da minha 
 culpa e minha solidão, o não perdão dos críticos, os juízes, cegos por minha esperança e minha confiança têm que me deixar passar . Ele está presente  -  que absolve. Páscoa vem a mim. A pedra se foi. "Eu estou aqui fora." (Ver também Mateus 28,1 ss)
Autior: Wolf